Carlos Santana voltou a criticar a valorização excessiva da técnica em detrimento da expressão musical. Em entrevista à nova edição da revista Guitarist, o guitarrista afirmou que muitos músicos confundem velocidade e virtuosismo com profundidade artística, ignorando o impacto emocional que a música pode e deve causar.
Para Santana, a música não deve ser encarada como uma competição. “No fim das contas, a música não é um esporte, principalmente para quem a ouve”, afirmou. Segundo ele, a obsessão por tocar rápido se assemelha a uma exibição física sem propósito artístico. “Depois de um tempo, é como ir à academia e ver alguém exibindo os músculos. Grande coisa. E daí?”, questionou.
O músico defende que o que torna um guitarrista memorável é a capacidade de emocionar. “A única coisa de que as pessoas vão se lembrar é como você as fez sentir”, disse. Para Santana, frases simples, tocadas com intenção, têm mais impacto do que passagens técnicas complexas. “Elas não vão se lembrar das escalas rápidas, mas daquelas poucas notas que arrepiaram a pele ou provocaram lágrimas.”
Santana também destacou a importância do “espírito” na música conceito que, segundo ele, envolve tocar com coração e alma. “Algumas pessoas não sabem tocar com espírito. Esses são ingredientes fundamentais”, afirmou.
Outro ponto central da entrevista é a improvisação. Para Santana, improvisar significa aceitar o desconhecido. Ele comparou o ato a descer um toboágua sem saber como será a chegada. “Qualquer um pode praticar escalas, mas improvisar é se lançar ao inesperado”, explicou. O guitarrista citou John Coltrane, Miles Davis e Wayne Shorter como referências máximas dessa abordagem, lembrando um conselho de Shorter: “Não sabemos o que vamos tocar; como se pratica o desconhecido?”
Além do jazz, Santana destacou influências menos óbvias em sua formação. Ele mencionou Sun Ra, Grateful Dead e Bob Dylan, elogiando a forma como o músico norte-americano utilizava a guitarra de maneira funcional e expressiva, em sintonia com sua voz.
O guitarrista também ressaltou a importância de aprender com cantoras de soul. Segundo Santana, tocar ao lado dessas intérpretes é uma das formas mais eficazes de desenvolver fraseado e sensibilidade musical. “Se um guitarrista passar um único dia aprendendo a frasear como cantoras de soul, ele se tornará um músico melhor”, afirmou.